Pensando a Empresa do Século XXI

Ontem a tarde, foi dado o pontapé inicial no "Programa Excelência Gerencial" da Sabesp, um amplo e inovador conjunto de atividades de formação em estão, envolvendo, palestras, cursos e oficinas, coordenado pela Fundap.

A palestra inaugural foi proferida pelo professor Oscar Motomura da Amana Key. Com a sabedoria de sempre, o professor abordou o tema "O mito das diferenças entre gestão pública e gestão privada". 

Focando o "fazer acontecer" e o "impossível, como adversário a ser combatido", Motomura falou de modelos mentais, hierarquia, transparência, empreendedorismo, trabalho em equipe, sustentabilidade, ética e mais um sem número de questões vitais para o futuro das organizações, sobre as quais nos sentimos mais estimulados a pensar após ouvi-lo.

Embora esta palestra não esteja disponível para download, quem quiser conhecer um pouco mais à fundo o pensamento e a obra de Oscar Motomura pode visitar seu site na internet.

Durante a exposição, para ilustrar sua abordagem sobre a ética, o palestrante projetou o vídeo abaixo, que retrata uma pequena parte de uma aula do filósofo Michael Sandel, provavelmente o mais popular professor da Universidade de Harvard, que nos mobiliza, de maneira criativa e bem humorada, a refletirmos sobre um assunto muito sério, "o lado moral do assassinato". 

 

A propósito, este e outros temas, igualmente controversos e desafiadores, são abordados, no mesmo estilo, em seu mais recente livro "Justiça - O que é fazer a coisa certa".


Inovação? Não li, mas já gostei.





Dia 28 de maio, estive no lançamento do livro "10 Dimensões da Gestão da Inovação", escrito pelo José Cláudio Terra, diretor presidente da TerraForum Consultores, e pelos seus colaboradores: Bjorn Frederick, Fábio Vernalha, Mariah Romão, Maurício Manhães e Suzana Leonardi.

Embora ainda não tenha lido o livro, e por isso não possa julgá-lo pelo conteúdo, o simples fato de tê-lo em minhas mãos, já melhora meu astral. Tenho duas razões para isso.

Primeira, como cidadão, fico feliz com o crescimento e consolidação da TerraForum, não apenas pela empresa em si, mas pelo que ela simboliza em um país que luta para superar a desigualdade, triste herança de esquemas sociais oligárquicos, ainda muito presentes nos mais variados segmentos que compõem esta complexa nação.

O atraso e a inovação, como sabem, não se bicam. Na verdade, se detestam. Por esse motivo, cada vez que vejo um gol do time da inovação, vibro como se fosse do Neymar. O surgimento e o sucesso de empresas com o perfil da TerraForum e de outras jovens empresas centradas no capital intelectual e na criatividade vão formando a única massa crítica indispensável para um país que sonha com o desenvolvimento sustentável. Não se iludam, pouco adianta ter petróleo em profusão sob nossos pés, se não tivermos igual dose de conhecimento em nossas cabeças.

Segunda, como profissional, fico contente com a crescente disponibilidade de métodos, técnicas e ferramentas que fomentem a inovação  e que substituam modelos mentais e formatos organizacionais que tomamos emprestado da sociedade industrial, e que já esta na hora de devolver. Este livro aponta alguns dos mais importantes passos a serem trilhados pelas novas organizações, que ambicionam um lugar de destaque na economia do conhecimento, e pelas velhas organizações, em busca da sobrevivência.

Para que quiser ter uma visão geral dos temas tratados no livro, convém dar uma olhada nesta apresentação construída pelo Terra e sua equipe.

Você Viveria sem a Internet?

Embora a Internet comercial no Brasil seja ainda uma jovem de apenas 17 anos, fica difícil imaginar como seria nossa vida, hoje, sem esta envolvente criatura. Ela ocupou tantos espaços, de forma tão profunda, em tão pouco tempo, que as vezes tenho a sensação de que ela sempre existiu.

Esse cenário maluco levou o Professor Michael Cox, da SMU Cox School of Business,  a perguntar aos seus alunos, quanto eles cobrariam para abrir mão da Internet. Teve gente que pediu um bilhão de dólares, ou seja mais de 2 bilhões de reais.

Segundo o professor, essa contaminação sem precedentes está associada à queda expressiva e continuada nos custos de acesso à rede mundial e nos preços dos computadores e celulares que possibilitam essa comunicação, bem como à miniaturização e ampliação das funcionalidades destas facilidades. O atuais smartphones, por exemplo, fazem de tudo, até mesmo chamadas telefônicas.

Em cima da questão proposta por Cox, a Fund for American Studies (TFAS), ONG norte-americana voltada para disseminação da liberdade e do livre mercado, foi às ruas para saber que valor as pessoas atribuiriam a Internet. O resultado está no filme abaixo exibido, para o qual fui alertado pelo meu colega JP.

Além das respostas dos usuários, o vídeo vale a pena, também, pelo rápido histórico dos dispositivos eletrônicos, com particular atenção ao "mobile" utilizado por Michael Douglas, no filme Wall Street. Na verdade já era um multifuncional: telefone e peso para musculação.






E você, quanto cobraria para ficar fora da Internet?


"Barcelonizando" a Corporação



O tradicional jogo entre pensamento analítico x intuição, um dos maiores clássicos do mundo corporativo, vive, nos dias de hoje, momentos particularmente emocionantes. Embora o retrospecto mostre uma boa vantagem para o time do pensamento analítico, que nos últimos cem anos tem conseguido ganhar os torneios mais importantes, a equipe da intuição se reforçou muito, principalmente a partir do século XXI, e tem conseguido levar alguns campeonatos que, antes, eram tradicionalmente conquistados pelo poderoso oponente.

Para entender melhor essa mudança, vamos dar uma olhada nas principais caraterísticas de cada equipe.

Pensamento Analítico

Filosofia de jogo: Usa processos rígidos repetidos à exaustão e estimula o uso de métodos quantitativos.

Como chegar ao gol, ou seja preservar a competitividade ao longo do tempo: Lança mão do conhecimento já existente, obtido com base em dados do passado. Não gosta de firulas e desestimula os jogadores a ficarem dando palpite. Cada jogador sabe direitinho o seu papel.

Slogan: Em time que ganha, não se mexe.

Intuição

Filosofia de jogo: Explora a criatividade e a inovação. Tem um jogo baseado no talento.

Como chegar ao gol, ou seja preservar a competitividade ao longo do tempo: Usa sempre novas formas de conhecimento. O drible é incentivado e ninguém tem posição fixa. Os jogadores falam muito entre si e tem autonômia para improvisar.

Slogan: O futuro não é mais o que era.

Analisando as duas fichas, acho que dá para perceber por que o time da intuição tem surpreendido.

O mundo do pensamento analítico está muito centrado em cenários estabilizados, com ciclos de vida longos, onde a inovação ocorre de forma bastante espaçada. Por exemplo, lembram-se da linguagem de programação Cobol? Ela sobreviveu durante muitos e muitos anos. Um bom profissional nessa especialidade conseguiu levar toda uma carreira em cima dela. Bons tempos!

O mundo atual, no entanto, está centrado na mudança rápida, em ciclos de vida abreviados. O que nós sabemos hoje, não garante a sobrevida amanhã.

Lembro, até hoje, da frase, dita em tom grave e solene, por um amigo meu, da área de informática, lá nos meados dos anos 80.

- Daqui para frente, quem não souber Clipper está morto.

Hoje eu atualizaria a fala dele, completando.

- E quem souber, também.

Para encerrar, cito o Pep Guardiola, o Barcelona (intuição) perdeu muito (para os analíticos) para começar a ganhar.

É hora de "barcelonizar" a corporação.

A Informação, O Conhecimento e As Pessoas


Fonte: MS Clip-Arts Gallery

Como mencionei na minha postagem anterior, Gestão da Informação e Gestão do Conhecimento são parentes próximos, característica esta que causa muita confusão quando se trata de implantar programas referentes a uma e outra modalidade.

Embora ambos sejam fundamentais para as organizações atuais, se não tivermos claro os impactos e as entregas de cada um deles, a possibilidade de venda de gato por lebre torna-se muito grande. Isto é ruim para ambas as ações.

Para começo de conversa, vamos esmiuçar as relações de cada um dos programas com as pessoas, o mais importante dos componentes organizacionais, considerando cinco atributos: qualificação, cultura, colaboração, liderança e empreendedorismo, e criatividade. As diferenças entre os dois programas tendem, espero, a tornarem-se mais claras a partir deste corte.

Em relação à qualificação, é inconteste que o sucesso de ambos os projetos depende da excelência dos profissionais envolvidos. Duas competências, em especial, são comuns neste caso: conhecer o negócio, sabendo para onde aponta o vento - essencial em tempos de mudança acelerada – e domínio da tecnologia da informação e comunicação. As demais habilidades requeridas são, no entanto, bastante distintas. A implementação de programas de Gestão da Informação demanda profissionais com bom domínio de métodos quantitativos e funções estatísticas para tratar dados e informações já exteriorizados, o chamado conhecimento explícito. Os de Gestão do Conhecimento requerem, prioritariamente, qualidades de articulação e fidedignidade, uma vez que o capital a ser trazido para a organização ainda reside na cabeça dos colaboradores, na forma de conhecimento tácito.

Na dimensão cultura, os impactos oriundos da implantação dos dois projetos são mais distintos. Embora ambos envolvam mudanças de postura, a Gestão da Informação conta a seu favor com o fato de que suas práticas já estão culturalmente mais maduras, facilitando sua disseminação pela Casa. No que toca a Gestão do Conhecimento, por envolver mudanças mais profundas em paradigmas organizacionais há muito arraigados, herdados da era industrial, e por estar ancorado no uso técnicas muito recentes, ainda pouco familiares para a grande maioria das organizações, tais como comunidades de prática, storytelling, gestão de idéias, só para exemplificar, o caminho será sempre mais longo.

No que aponta para a colaboração, ela é estratégica em ambos os programas. A vantagem para os programas de Gestão da Informação, é que estes trabalham com uma matéria prima que já foi exteriorizada, que já pertence à organização, ainda que em muitos casos capturadas por silos, que dificultam sua circulação, baseados no surrado e ultrapassado bordão “informação é poder”. Já a Gestão do Conhecimento tem que ultrapassar uma barreira a mais, qual seja estimular as pessoas a colocarem à disposição da organização o seu conhecimento tácito, saber interiorizado de difícil articulação e que jamais será arrancado a fórceps, o que por si só já mostra a necessidade de relações interpessoais profundas, normalmente não requeridas nos projetos de Gestão da Informação.
Também no quesito liderança e empreendedorismo, os programas de implantação de Gestão do Conhecimento envolvem intervenções mais complexas. Ainda que as organizações modernas, todas elas requeiram lideranças fortes que saibam motivar times, o gás a ser dedicado a sensibilizar para a importância do conhecimento será ainda mais forte, pois implicará em mexer em zonas de conforto, conviver com o erro, e correr outros riscos que demandarão, além de liderança, forte espírito de empreendedorismo interno.

Finalmente em relação à criatividade, enxergo aí a maior diferença entre projetos de Gestão da Informação e do Conhecimento. Enquanto o primeiro repousa em rotinas, o segundo, em quebra de rotinas. Explicando melhor, a sociedade do conhecimento, com seus curtíssimos ciclos de vida, irá despejar, cada vez mais, sobre as organizações situações e problemas inéditos e, por isso mesmo, não captados pelo espelho retrovisor. Lembram-se da organização que aprende do Peter Senge? É por aí. Sobreviver, neste cenário, implicará em um suceder de novos produtos e serviços, cada vez mais intensos em conhecimento, fruto de soluções ousadas e criativas. 

Para encerrar, o quadro abaixo dá uma resumida nas relações aqui comentadas.



Breve, continuaremos esta "saga", falando sobre informação, conhecimento e a dimensão tecnológica.

O Primeiro Desafio da Gestão do Conhecimento


Implementar um programa de gestão do conhecimento nas organizações, independente de tamanho ou setor, não é tarefa simples. Nas salas de aula e nos ambientes de trabalho, com raras e honrosas exceções, não somos estimulados a agir proativamente e a criar e compartilhar conhecimento.

Escolas e empresas, moldadas que foram pela era industrial, privilegiam a obediência inconteste e a especialização extremada. A produção de conhecimento, neste modelo, é atribuição de uns poucos cérebros iluminados, situados na parte de cima dos organogramas, que os repassa, sob a forma de tarefas, para os demais funcionários.

A incipiente era do conhecimento possui, no entanto, outros valores e paradigmas, que são, a princípio, como é comum em momentos de mudança, mal compreendidos, subestimados, ridicularizados ou, até mesmo, nos casos mais agudos de cegueira organizacional, simplesmente ignorados.

Com o passar do tempo e com o aumento do fracasso de métodos tradicionais que sempre deram certo, a questão do conhecimento vai, de mansinho, entrando na pauta das empresas, ainda que nem sempre - na verdade quase nunca - isto ocorra pela porta da frente.

Nas frestas abertas para o exame da questão do conhecimento, percebo que o primeiro problema a ser enfrentado é dirimir a confusão ainda hoje muito presente, entre gestão da informação e gestão do conhecimento.

Se pudéssemos transformá-las em pessoas, veríamos que, embora parentes próximos, primos irmãos eu diria, a informação e o conhecimento possuem personalidades bem diferentes, merecendo, por isso mesmo, tratamento bem distinto.

A informação é desconfiada, disciplinada, pragmática, rigorosa, gosta de tudo bem certinho, não é muito dada a improvisações. Se pudesse falar, repetiria coisas do tipo: Pão pão, queijo queijo. Quem espera sempre alcança. Anda, sempre, com a tábua de logaritmos debaixo do braço.

O conhecimento ao contrário, arrisca mais, é abusado, irreverente, distraído, tem certa dificuldade de expressão. Lembraria, se pudesse se manifestar, ditados tais como: Errando é que se aprende. Agora, Inês é morta. Seu livro de cabeceira é “Dom Quixote” de Cervantes.

Voltando para o plano organizacional, desconsiderar essas diferenças impede a implantação de programas sérios de Gestão do Conhecimento e frusta aqueles que buscam, apenas, um bom projeto de Gestão de Informação.

Na próxima postagem, à luz dessas peculiaridades, mostrarei os requisitos e os impactos de uma e de outra ação sobre os principais recursos e dimensões organizacionais.

Até lá, caro leitor, peça aos dois para não brigarem.

Seus problemas (não) acabaram



Quanto mais adentramos no século XXI,  mais evidente vai se tornando o conflito entre hierarquias rígidas e criação de conhecimento, o recurso mais cobiçado de nossos dias.

Por isso mesmo, com o passar do tempo, experiências exitosas de empresas que adotam novos formatos organizacionais menos burocratizados começam a ganhar divulgação.

É muito legal que isto ocorra mas, desgraçadamente, ao contrário do slogan das Organizações Tabajara, isto não equivale a dizer que seus problemas acabaram. Embora derrubar barreiras, facilitar as comunicações horizontal e vertical, seja prática saudável e, ao meu ver, indispensável, ela não consegue virar o jogo sozinha.

Há outras dimensões que devem se juntar a ela para reforçá-la. Falarei, aqui, de cinco delas que me parecem fundamentais nesse esforço rumo a organização do século XXI.

Qualidade dos Recursos Humanos

Qualquer que seja o formato organizacional utilizado, a chance de sucesso do mesmo varia na razão direta da qualidade dos recursos humanos envolvidos.   Pessoas qualificadas tem mais facilidade em perceber o sentido e a intensidade dos ventos da mudança e são mais conscientes da necessidade de promover alterações que visem garantir a sobrevivência e a efetividade do(s) negócio(s) nos quais estejam inseridos. Pessoas com baixa qualificação, ao contrário, enxergam, na mudança, a face do risco, mas não a da oportunidade.

Conhecimento do Problema

Sub-produto da qualidade dos recursos humanos, o conhecimento do problema é resultado da transformação de competências individuais em resultados corporativos.  Isto envolve não apenas mudanças na estrutura burocrática demandando, igualmente, maestria na utilização dos modelos, métodos e técnicas gerenciais mais adequados face os atuais e futuros processos de trabalho daquela organização.

Cultura Aberta à Inovação

Formatos novos em cabeças velhas tendem a acentuar resistências e conduzir a organização no sentido oposto ao pretendido. Nos tempos atuais, onde a mudança e a incerteza predominam, organizações culturamente abertas ao novo tem melhores condições de ir para a frente, quando comparadas a outras que atuem no mesmo setor, mas que não possuam essa característica. As primeiras vão enxergar novos formatos como recurso, as últimas, como modismo, afinal isto as ajudará no discurso do atraso.

Característica Setorial

Embora a inovação esteja, hoje, inoculada em praticamente todos os produtos e serviços, certas especificidades do(s) setor(es) no(s) qual(is) a organização esteja inserida, como tipo do bem, tamanho do mercado, existência de substitutos, abertura à concorrência, entre outros, podem ampliar ou retardar a necessidade de mudança. No setor público, por exemplo, tais elementos aliados ao formalismo e as amarras legais tendem a dificultar esse processo.

Adequação Tecnológica

Utilizar as melhores tecnologias da informação e comunicação para cada problema a ser atacado, é, hoje, condição determinante para  o sucesso das organizações. Entidades nas quais a percepção  novas tecnologias demorem para ser   difundidas e incorporadas às rotinas organizacionais presentes no discurso de venda dos fornecedores. Organizações com boa vivência tecnológica, ao contrário, sabem quais instrumentos utilizar sem, no entanto, considerá-los ferramentas milagrosas que permitam esquecer as demais dimensões da organização.

Ao longo de nossas próximas postagens, iremos falando  mais detalhadamente sobre cada um desses temas e expondo por que acreditamos que a jornada corporativa rumo a era do conhecimento não será  fruto de pequenos ajustes isolados, e sim resultado da progressiva percepção de que o risco do imobilismo está superando o da mudança e colocando o futuro da organização em xeque.